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Prosa Proética, do programa Tarde Ponto Com, por Mary Arantes: Flor de Cacau

Por Mary Arantes, 05/03/2020 às 18:42
atualizado em: 05/03/2020 às 18:44

Texto:

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Perguntei pra ela do que gostava de brincar, ela me respondeu, de nada! Imaginei que nada era o nome dos brinquedos dela, a areia, os ossos achados no chão, os paus tortos, gravetos e sementes. Tinha uns 5 anos e se chama Itxáhá, me disse o pai. O nome significa Flor de Cacau na língua dos Pataxós. Existem no sul da Bahia, 13 aldeias indígenas próximas à Caraíva, Corumbau e Cumuruxatiba. É lá que moram.

Com o rosto pintado pelo pai, em tinta de jenipapo, era ali no saguão do hotel uma indiazinha linda. Enfeite lindo e triste. Portava saia de fibras naturais, o peito nu adornado por colares de sementes. Era nitidamente objeto para turistas, assim como o arco e a flecha e demais utensílios de madeira por eles feitos.

O sorriso já fora maculado pelos dentes com cáries. Vivem na Aldeia Águas Claras, em Corumbau, onde o pai Uirapuru é professor no CAAS, na oca onde a escola funciona.

Enquanto conversámos, Uirapuru fez em meu braço, uma tatuagem. Não tocava em mim, apenas o filete de madeira com a tinta, nos unia, foi quando disse a ele que poderia me segurar com suas mãos. Foi então que pegou meu braço, suas mãos eram negras, tingidas pela tinta do jenipapo, cujo sumo (a tinta) se colhe ainda verde, para fazer a tatuagem. Suas unhas eram muito curtas e curvas, quiçá como as do próprio pássaro que leva seu nome, Uirapuru. Eram as unhas o único espaço branco e liso em suas mãos, o único lugar onde a aspereza da vida não deixou sinais. O resto eram penas inglórias.

Diz a lenda que o Uirapuru é um pássaro especial, mágico e quem o encontra, pode ter um desejo realizado. O meu desejo ao te encontrar Uirapuru, é que você como mestre e pai possa nos ajudar a tornar este mundo melhor, onde os povos indígenas sejam vistos como seres humanos e não em saguões de hotéis como espécimes remanescentes de um Brasil colonial.

Conheci José Henrique, em Dunas de Itaúna, mais conhecido na região com Zezão, Zé é um apaixonado pela região do sul da Bahia, comprou terreno e assentou moradia por lá. Sempre que o perguntam, o que o fez ir morar naquela região ele responde, nada! Assim como Itxáhá, nada muitas vezes pode significar tudo. Às vezes, quando já vimos de tudo no mundo, principalmente tudo que nos assombra, achar o nada é achar seu lugar de paz no mundo.

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