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Concorrente de Democracia em Vertigem ao Oscar, The Cave traz o terror da guerra na Síria

Por Agência Estado, 03/02/2020 às 14:16
atualizado em: 03/02/2020 às 15:18

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Foto: Divulgação
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No ano passado, a National Geographic levou o Oscar de documentário com Free Solo, de Jimmy Chin e Elizabeth Chai Vasarhelyi, sobre Alex Honnold e sua missão de escalar o paredão El Capitán, na Califórnia, sem ajuda de equipamentos. Eles tentam repetir o feito no próximo domingo (9), com um filme bem diferente: The Cave, de Feras Fayyad, mostra as dificuldades de um grupo de médicos num hospital semi-subterrâneo na Gruta Oriental, cercada durante cinco anos na Guerra da Síria, iniciada em março de 2011.

The Cave, que será exibido pela NatGeo nesta segunda, às 21h tem entre seus concorrentes o brasileiro Democracia em Vertigem de Petra Costa, uma visão pessoal da diretora sobre a ascensão de Lula e o Partido dos Trabalhadores, o impeachment de Dilma Rousseff e a crise político-econômica que culminou na polarização política e na eleição de Jair Bolsonaro.

The Cave não é o único documentário sobre a Síria a concorrer ao Oscar. For Sama, de Waad al-Kateab e Edward Watts, é um relato particular de Waad, uma jovem mãe tentando sobreviver aos bombardeios em Alepo. "Há muitos filmes sobre esse conflito, vários deles relatos de pessoas comuns que tentam documentar os crimes de guerra", disse uma das produtoras de The Cave, a dinamarquesa Sigrid Dyekjaer, em entrevista durante evento da Television Critics Association (TCA).

"Fayyad é um cineasta com 'c' maiúsculo. Temos muita sorte de trabalhar com ele." Feras Fayyad concorreu dois anos atrás ao Oscar com outro documentário, Últimos Homens em Alepo, sobre a atividade dos Capacetes Brancos, um grupo de socorristas voluntários, na cidade síria. Era uma versão "masculina" da Guerra da Síria, o que fez o diretor pensar nas mulheres durante o conflito.

"Ele conheceu muitas delas nos presídios, já que foi preso e torturado pelo regime de Bashar al-Assad", explicou Dyekjaer. A produtora, junto com Kristine Barfod, também produtora, falou em nome do cineasta, que teve o visto de entrada nos Estados Unidos negado - ele finalmente chegou ao país, depois de pressão da própria Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, no dia 27 de janeiro. "Ele dedica este filme a sua mãe, suas sete irmãs e à sua filha", disse Barfod.

The Cave foca na jovem pediatra Amani Ballour, que gerencia um hospital parcialmente subterrâneo para escapar dos bombardeios intensos à cidade. "Por mais de quatro anos, estivemos embaixo de bombas e sitiados, sem comida, sem remédios, sem suplementos médicos, com muito poucos médicos e alguns voluntários", disse Ballour via satélite da França, para onde tinha viajado para receber o prêmio Raoul Wallenberg por Ações Humanitárias Extraordinárias.

"Enfrentamos muitas situações difíceis, porque as crianças estavam com fome e com medo o tempo inteiro. O pior foi o ataque químico pelo regime de Assad. Centenas de pessoas estavam sufocando e morrendo, e tínhamos de escolher quem salvar, porque não tínhamos condições de ajudar a todos".

Em uma cena, a médica diz para todos sorrirem pelas crianças. "Era importante fazê-las se sentirem felizes e um pouco mais seguras. Elas não conhecem nada do mundo além de sangue e destruição. Mas claro que não era fácil porque eu também estava com medo. Podíamos morrer a qualquer minuto".

Ela aceitou participar do filme depois de inúmeros apelos à comunidade internacional. "É uma vergonha para o mundo que o povo sírio esteja sofrendo há nove anos, com milhões de refugiados, uma geração inteira sem escola, e pessoas sendo torturadas nas prisões. Este é nosso testemunho do que está acontecendo na Síria. É a minha realidade. Quero que as pessoas saibam da verdade porque o regime de Assad sempre mente e diz que somos terroristas. Quero que vejam a brutalidade que os civis sofrem".

Seu outro objetivo é provar que as mulheres são tão capazes quanto os homens. Sendo do sexo feminino, ela sempre enfrentou muitas dificuldades num país machista. "Eu não podia brincar com meninos nem subir em árvores, muito menos andar de bicicleta", contou.

"Hoje as coisas mudaram um pouco. Alguns homens até admitem uma mulher ser uma médica tratando de mulheres ou de crianças, mas não gerenciando um hospital. Alguns se recusavam a falar comigo, outros gritavam. Era frustrante", completou Ballour. Ao que consta, ela foi a única mulher a comandar um hospital sírio.

Para o cineasta e os produtores também foi difícil realizar o longa nessas condições. Um satélite usado para transmitir as imagens para a Dinamarca foi destruído pelos aviões da Rússia, aliada de Assad, e parte do filme teve de ser contrabandeada para fora do país. E chegou o momento em que os médicos e voluntários foram obrigados a deixar seus postos. "Não saímos por vontade própria. Fomos deslocados da Síria pelo regime de Assad e a Rússia. Por um mês, a cidade sofreu um ataque brutal. Aí, disseram: vocês podem deixar a cidade nos ônibus que estamos providenciando, ou podem ficar e serem mortos".

Todos os personagens do filme estão seguros - cerca de 5,6 milhões de sírios tiveram de fugir do país. A doutora Amani Ballour hoje está na Turquia, que recebeu 3,3 milhões de refugiados sírios. The Cave é um claro chamado à ação. O site www.StandwithDrAmani.com (em inglês) traz informações e formas de ajudar o povo sírio.

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