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Lamas Gerais

Existem gritos que sufocaram em meio à avalanche. Existem gritos que calaram a sirene de emergência, que nem mesmo tocou.

31/01/2019 às 04:43

Jéssica Moreira


Sete dias me sentindo impotente. Sete dias sentindo angústia, dor e choro. Sentir o cheiro da lama misturado ao de vidas perdidas é o que vivemos nessa última semana, com o coração frio e cheio de lágrimas. Presenciar o ar que um dia foi fresco e agora amargurado com a ferrugem do minério, que não serve pra mais nada a não ser matar. Matar sonhos, famílias, esperanças. Será que vale o dinheiro gasto? Lógico que não. Não vale nem mesmo o valor ganho. Nada vale a riqueza acumulada. Até mesmo porque quem acumulou todos estes bilhões, em decorrência da ganância, não foram as famílias das vítimas. 

Sinto-me impotente. São dias de tristeza e lamentos. Há uma semana, centenas de pessoas ouviram um estrondo. Era a barragem se rompendo. Hoje? Não se ouve mais o choro da criança, nem mesmo o barulho do whatsapp com a mensagem do pai, esposa, amigos, desesperados procurando por notícias. Não se vê mais o sorriso da mulher amada, nem se sente mais o abraço apertado do filho ao chegar do trabalho. Está tudo sob a lama. 

Laços foram desfeitos. Sonhos foram perdidos e cimentados nos rejeitos. Não há mais o verde da esperança. Há uma massa que concretou famílias inteiras. Existem gritos que sufocaram em meio à avalanche. Existem gritos que calaram a sirene de emergência, que nem mesmo tocou. Enquanto os sobreviventes tentam conter as lágrimas, esperando por notícias, fica a pergunta: que estabilidade é essa de uma barragem que varre um número tão grande de pessoas de uma só vez?

Houve tanta ganância e tanta negligência que os rejeitos não suportaram. Romperam-se. Há quem ainda vá classificar como tragédia natural. Não! Foi uma tragédia anunciada. Ou melhor, uma tragédia evitável. Bastava ter um pouco mais de responsabilidade com centenas de vidas, histórias, com Minas Gerais e com o meio ambiente. Bastava ser humano nesta hora. Não foi. Deixou-se tudo a “Deus dará”.

Negligência e ganância caminharam juntas. Quanto maior a negligência, mais lucro, mais cifras, mais riqueza material. Quanto mais tempo nós gastamos somando bilhões e bilhões, menos tempo eu tenho de conhecer quem está ao meu lado. Menos tempo eu tenho para deixar que alguém dê seu último adeus. Menos tempo eu permito que diga eu te amo ou peça perdão. Menos tempo eu dou para que corra da lama. 

Somos uma geração de angustiados, sofredores e tentando, ainda, amar ao próximo sem uma posse. Somos uma geração que tenta entender e aprender tudo que se passou em Mariana há três anos. Somos uma geração que está perdendo amigos, conhecidos, parentes, para sirenes mudas. Somos humanos precisando de humanidade. O que era pra sempre, construído numa história com suor e lágrima, virou pó. Isso não vale, Vale. O sertão virou mar... de lamas.

Não tenho dúvidas de que Deus vai ajudar e confortar a dor de todos que choram neste momento, mas não tenho dúvidas também de que ninguém vai se esquecer do dia 25 de janeiro de 2019. Ficará marcado na alma dos sobreviventes e dos que perderam alguém amado. Mariana não foi esquecida e relembrada em Brumadinho. Números camuflados estão debaixo do lamaçal. Existem muito mais pessoas que imaginamos. 

O sentimento de injustiça nos toma, infelizmente, mas precisamos agora aprender algo com tudo isso. Que nós possamos viver o nosso dia intensamente, declarando amor, pedindo perdão, abraçando mais quem está ao nosso lado. Que possamos dar valor às pessoas, que tenhamos gratidão pela vida! 

Vamos viver! Ninguém sabe até quando!

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