José Lino Souza Barros

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Possessa

07/03/2020 às 12:37
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Ouça a crônica de Nelson Rodrigues na voz de José Lino Souza Barros!

Fizera um péssimo casamento. O marido tinha mau gênio, era ranzinza que Deus me livre e, além disso, se ressentia dos chamados ciúmes doentios. E não fazia segredo dos próprios defeitos. Durante o namoro, ele a chamara mais de uma vez:
-- Vem cá, Julieta, vem cá.
— Pronto, Manoel.
E ele:
— Vamos conversar, aqui, um negócio, direitinho. Já te disse que sou ciumento, não disse?
— Disse.
— Pois é. Sou ciumento demais. Tenho ciúmes de tudo — e insistia, sublinhava: — De tudo, ouviu?
-- Ouvi.
Respirava fundo e continuava:
— Olha que cu não vou ser um marido nada fácil. E quero saber o seguinte: você vai topar mesmo assim, topa? Sabendo que sou como sou?
A resposta vinha tranquila, cordial c corajosa:
— Topo.

Matrimônio

Julieta amava. E como toda a mulher enamorada era cega e muda para os defeitos do ser amado. Ou por outra: gostava de tudo em Manoel, inclusive dos defeitos. Ele era ríspido, explosivo e a tiranizava de uma maneira bárbara. Ela, porém, de índole boa e suave, admitia a autoridade do rapaz e achava mesmo um certo encanto na própria submissão. Uma vez, Julieta precisou tomar uma série de injeções. Manoel foi categórico, estabelecendo a condição feroz:
— Injeção só no braço, ouviu? Só no braço!
— Mas é de óleo, meu anjo! Dói muito e forma um calombo!
Ele fechava a questão:
— Tem que ser no braço, pronto, acabou-se!
Enfim, casaram-se. E, então, Julieta aprendeu que um mesmo homem é uma coisa como noivo e outra como marido. No terceiro dia da lua de mel, ele interrompeu uma cena de amor para perguntar, à queima-roupa: "Você teve algum namorado antes de mim?" Ora, já fizera a mesma pergunta em ocasiões anteriores. A resposta de Julieta foi a de sempre: "Não." Insistiu:
— Nem flerte?
No seu abandono e distração, a moça admitiu:
— Flerte, sim. Alguns.
Num movimento rápido, ele se sentou na cama. Estava pálido, com o lábio inferior tremendo: "Quer dizer que...?" Interrompeu-se num surdo sofrimento. Ela quis envolvê-lo no seu carinho, aplacar a angústia que o outro já não podia dissimular: "Vem cá. Deixa de ser bobo. Parece criança”. Ele porém, ressentido, ficou andando de um lado para outro:
— "Alguns", hein — e, exagerou, no seu desespero: — Quer dizer que você dava em cima de tudo quanto era homem. Sim, senhor!
— Mas, oh, Manoel! Até me admira, puxa! Além do mais, eu nem conhecia você!
Explodiu: — "Não me conhecia, engraçado! Pois fique sabendo que também me casei com o passado de minha mulher!"

Tragédia

Este primeiro incidente conjugal foi o ponto de partida para muitos outros. Julieta podia dizer, com razão: "Estou comendo o pão que o diabo amassou." Não ia a cinema, a teatro, a parte nenhuma. Só saía, uma vez ou outra, com o marido do lado, de cara amarrada. A princípio, quis resistir. Argumentou, então: "Você pensa que eu morri para o mundo, só porque casei?" Ele a encarou, com um olhar muito firme; foi terminante:
— Morreu, sim. A mulher que se casa morre para o mundo. Você está morta, ouviu? Morta!
Julieta percebeu nele, uma tal carga de vontade, uma determinação tão implacável, que teve medo. O marido não lhe permitia uma vaidade: não podia se pintar, nem usar perfume. Sóbrio, mas inapelável, Manoel criava as leis da casa: "Vestido colante, não. Nem decote. E pra que meia fina? Em absoluto!" Era professora e ia para a escola vestida como uma velha, de uma maneira quase cômica. Submetia-se, porém, à vontade mais forte. Diante dele, de suas ordens sumárias, criara o hábito da obediência incondicional. E, mesmo na sua ausência, tinha-lhe medo. Não podia ter amigas, porque Manoel as vetava, uma por uma; ia dizendo: "Fulana, não. Nem Cicrana. Não prestam." E a verdade é que ele sofria de obsessões. Se uma mulher risse mais alto, via nessa alegria uma espécie de ostentação, de falta de pudor, de vitalidade excessiva e comprometedora. Então, dizia, numa irritação gratuita de doente:
— Aposto que aquela trai o marido!
E, assim, maltratada, tiranizada, atormentada pelo medo, envelheceu depressa. Sua vida estava assim reduzida a umas horinhas de aula e o resto num lar que era definitivamente triste como um túmulo.

A doença

De repente, o marido começou a tossir. Pela madrugada, tinha suores frios e era obrigado a mudar de pijama. Foi ao médico, tirou radiografia; e, assim, se constatou que estava doente do pulmão. Recebeu a notícia com aparente coragem; fez à meia-voz o comentário: “Não há de ser nada. Deus é grande.” Mas, na hora de dormir, sua calma se fundiu num desespero tremendo. Agarrou-se à mulher, deixou-se escorregar ao longo do seu corpo. Durante alguns minutos, ficou, soluçando, abraçado às pernas de Julieta. Ela, apavorada, acariciou seus cabelos embranquecidos. Afinal, ele se levantou, encarou a mulher e fez a pergunta:
— Você teria coragem de me beijar na boca? Hein, teria?
Antes que ela respondesse, Manoel a segurou e a beijou, longa e desesperadamente. Olharam-se, depois, arquejantes. Instintivamente, a moça ia passar as costas da mão na boca, para limpá-la do beijo. Mas não completou o gesto. Sentando-se na cama, o marido balbuciou: "Tem nojo do meu beijo. E medo." Repetiu, sem desfitá-la:
— Nojo e medo. Mas olha — e baixou a voz: — Olha, Deus te castiga!

Contágio

Dias depois, Julieta telefonava para o médico: "Essa doença pega doutor?" O médico foi franco: "Evidente!" Ela suspirou: "É só isso que eu queria saber. Obrigada." E o fato é que se sentia condenada. Todo dia era a mesma coisa. Quando chegava da escola, o marido, que piorava sempre, pedia: "Beija-me! Beija-me!" Dócil, ela se inclinava, roçava os seus lábios nos dele. Manoel, porém, não se deixava iludir: segurava a mulher pelos dois braços; dizia, trincando as palavras:
— Não é esse o beijo que eu quero. Quero um beijo de verdade.
Desde o primeiro momento, sentira que a ideia fixa do marido era o contágio. Passou-se um mês. Manoel era só pele e osso: expectorava, dia e noite. E, ao mesmo tempo, Julieta já acusava os primeiros sintomas. Tossia muito, emagrecia, sentia-se febril. Mas não ia ao médico, com medo de uma confirmação. Uma noite, o marido a acordou com o grito: "Sangue!" Em pânico, acendeu a luz. O marido se contorcia em acessos sucessivos de tosse. O sangue vinha, em golfadas tremendas. Sufocado, agarrava-se à mulher; fazia o apelo: "Morre comigo, morre..." Houve um momento em que tentou fechar as mãos no seu pescoço. Mas lhe faltaram as forças.

O pacto de morte

Quase morria. Quando a hemorragia cedeu, o médico levou Julieta para o corredor. E foi honesto: "Nao se iluda' Está nas últimas." Mas já o marido a chamava; quase sem voz, pediu que ela fizesse todo mundo sair e fechasse a porta. E, enfim, só com a mulher, disse: "Apanha veneno na gaveta, ali... Põe em dois copos..." E, com efeito, estava tudo preparado. Ela apanhou os dois copos, o veneno e fez o que o marido pedia. Depois encheu o copo com a água do jarro. Aproximou-se da cama, com um copo em cada mão. Naquele momento, Julieta pensou em todos os pactos de morte que lera nos jornais. Com as duas mãos trêmulas, Manoel apanhou o seu copo. A verdade é que, no seu estado, o suicídio era uma redundância. Gaguejou quase sem forças para formar as palavras:
— Bebe veneno... Juntos... Morrer juntos... Veneno...
Julieta balbuciou: — "Sim, sim..." Manoel já não tinha mais lucidez para perceber que tornava o veneno sozinho. Morreu quase feliz, na ilusão de que Julieta agonizava também. Ela correu ao banheiro, despejou o seu copo e o guardou no pequeno armário. Gritou, então.

Possessa

Parece que os sofrimentos e mesmo a doença, que já a consumia, a perturbaram um pouco. De noite, a casa encheu-se de parentes, amigos e vizinhos. Veio até um ex-aluno, rapaz de 17 anos, de pescoço muito branco e lábios finos e meigos. Houve, então, uma cena muito desagradável. Ela avançou para o rapaz e, na frente de todo mundo, quis beijá-lo. Tiveram que arrastá-la de lá. Foi um verdadeiro escândalo.

Sonoplastia: Renato Miranda 

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