José Lino Souza Barros

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A Esposa de Todos

De Nelson Rodrigues

29/02/2020 às 10:54
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A Esposa de Todos


Por cima da mesa, segurou a mão de Edite e fez-lhe a pergunta:
— Quer ser a minha esposa? .
Murmurou:
— Eu?
E ele:
— Quer?
Há um silêncio. Estavam numa sorveteria. Enxugando os lábios com guardanapo de papel fino, não sabe o que responder. Por fim, suspira:
— Não sei.
Com um princípio de angústia, gagueja:
— Não sabe? Mas vem cá: — você não gosta de mim? E, se gosta, o normal é que a gente se case ou não?
Ergueu o rosto e suspirou novamente:
— O negócio é mais complicado do que você pensa. Vamos fazer o seguinte: — Eu penso até amanhã e te dou uma resposta. Está bem?
Descontente, amargo, bufa:
— Te juro que estou com a minha cara no chão. Pensei que você gostasse de mim e quando acaba... Mas não há de ser nada e Deus é grande!


Diferente

Despediu-se da garota e ia triste e humilhado. Pouco depois, em pé no ônibus lotado, praguejava, interiormente: — "Mascarada!" Quanto à Edite, não dormiu essa noite. Pensava nos prós e contras daquele casamento e de todos os casamentos. De manhã, tornando café, abriu o coração para Dona Otília, sua mãe.
— O que é que a senhora acha, mamãe?
Enxugando uma louça, D. Otília simplificou:
— Casa. Por que não casa? Bom rapaz, direito. Casa.
Continuava na dúvida:
— O diabo é que... Mamãe, casamento é um problema!
Pouco depois, é chamada no telefone. Era Carlinhos:
— Já resolveu?
— Quase.
O rapaz queixou-se amargamente: — "É isso mesmo, e benfeito! Mulher não gosta de ser bem tratada! Se eu fosse um pilantra, você estaria aos meus pés. Mas como eu tenho boas intenções, já sabe: — você só me falta cuspir na cara.'" Sentiu no rapaz o amor próprio ferido e protestou:
— Não é nada disso, Carlinhos! Escuta: — você pode se encontrar comigo agora?
O outro insistia, quase grosseiro:
— Sim ou não?
E ela:
— Te digo, pessoalmente. Te espero na pracinha. Um beijinho pra ti.
Zangado, não retribuiu beijo nenhum.
Ele estava no trabalho. Vira-se para o chefe e dá a desculpa do dentista para sair. Quando chegou na pracinha, Edite já o esperava. Ele começou:
— Minha filha, vamos decidir isso. Em primeiro lugar, vou te dizer uma coisa: — quer, quer. Não quer, passe bem. Afinal de contas, que diabo!
Toma entre as suas mãos, as mãos do rapaz:
— Você me interpretou mal. É claro que eu gostaria de casar, mas...
Zangou-se:
— Você gosta ou não gosta de mim?
Assoa-se no lencinho:
— Se eu não gostasse, estaria aqui, Carlinhos?
— Então, qual é o drama?
Começou a chorar:
— Eu não sou como as outras. Eu sou diferente. Gosto de você, amo você, mas... — pausa e toma coragem: — Carlinhos, eu me sinto capaz de gostar, de amar mais de um, ao mesmo tempo!
Ele não entende:
— Que piada é essa?
Edite torce e destorce as mãos:
— Compreende agora? E eu te digo, com pureza d'alma: eu não acredito que ninguém possa amar uma só pessoa, a mesma pessoa, por toda a vida!
Carlinhos olha em tomo, com medo de que alguém estivesse espiando.
No seu espanto, arrisca:
— Você quer dizer o quê? Que me trairia? É isso?
Soluça:
— Sou capaz de tudo! Eu não entendo, compreendeu? Não entendo como alguém pode ser de um único! Isso não me entra. E quero ser leal contigo: — eu não sou mulher de um só. Agora responde. Olha para mim e responde: — você quer ser marido de uma mulher que chega e diz: — "Olha, eu posso gostar de você e de outros ao mesmo tempo?"
Não respondeu. Levantou-se e, fora de si, afastou-se e ia chorando de raiva, de ódio, de amor, sei lá.


Desespero

Dali foi para casa. Passou três dias trancado, sem sair do quarto. Mandava a mãe telefonar para o trabalho: — "Está doente, mas logo vai ficar bom." No quinto dia, saiu e foi procurar o Leleco, o único amigo em quem tinha confiança. Pedia: — "Dá uma opinião, um palpite... Devo fazer o quê?" O outro foi de uma alegre brutalidade:
— Chuta para escanteio. Ou queres casar assim mesmo?
Ele gemia: — "Imagina! Eu amando uma tarada!"
Por último, o outro põe-lhe a mão no ombro e baixa a voz: — “Topa uma farrinha comigo? Conheço um lugar daqui! Tem garotas espetaculares. Para estimulá-lo sussurrou: — "Meninas de colégio!" Quis rejeitar:
— Meninas de colégio, uma ova! Conversa! São umas vigaristas!
Leleco insistia: — "São de colégio sim! Eu conheço a dona! Vamos? Eu te levo e olha — a dona me faz um preço camarada!" Resistiu um pouco e acabou aceitando. No caminho Carlinhos resmungava: — "Estou muito velho para acreditar nessa conversa de menina de colégio!" Chegaram, e Carlinhos foi apresentado a Geni. Era uma gorducha, a quem chamavam de "Moby Dick". Ela própria, ao atender o telefone, identificava-se: "É a 'Moby Dick'!" Recebeu os dois com entusiasmo. E cochicha: — "Tem uma nova!" Leleco foi gentil, desprendido:
— Aqui o meu amigo, que está com dor de cotovelo, fica com a "nova"!
Carlinhos recebeu as indicações: — "Entra por ali, segunda porta, à direita." Ele foi, num desinteresse mortal. Só pensava em Edite. Está diante da porta e bate. Alguém abre. Assombrado, balbucia:
— Edite!
Era ela. Vestia um fabuloso quimono bordado a ouro. Ela tem um começo de choro: — "Você?"
Ela perguntou, chorando:
— Compreende agora por que eu não podia ser a sua esposa? A esposa de um? Eu nasci para ser de todos. A esposa de todos!
Quis fugir dali. Mas sentiu que a amava, que a desejava mais do que nunca. Caiu de joelhos, soluçando aos seus pés.


Sonoplastia:Renato Miranda 

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