José Lino Souza Barros

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Imaginação - A vida como ela é

De Nelson Rodrigues

15/02/2020 às 11:55
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Chega, como sempre, já passada a meia-noite. Tinha três empregos. Seu programa diário era o seguinte: — Saía de casa às seis da manhã, aflito; voltava na primeira hora do dia seguinte. De vez em quando, encontrava a mulher acordada, de quimono, e com o rosto iluminado. Nessas ocasiões, mal Antônio abria a porta, Silvia lançava-se nos seus braços. Quase boca com boca, sussurrava-lhe:
— Você gosta da tua gatinha?
Saturado dos três empregos, resmungava:
— Sossega o periquito!
E Silvia:
— Dá um beijo daqueles, dá?
Antônio desprendia-se e passava-lhe um pito:
— Será que você não tem consciência? Estou cansado, mulher! Trabalhei pra burro!
De fato, vinha arrasado. Aqueles três empregos eram, para o seu organismo, um desgaste pavoroso. Silvia arranjava uma pequena ceia que ele comia, cochilando. E nas vezes em que a encontrava dormindo, Antônio não a despertava. Preferia dormir a comer. A garota podia suspirar, para as amigas:
— Eu não tenho marido!

A leitura

Está claro que Dona Letícia, a mãe de Silvia e senhora cheia de varizes e experiência, não concordava com a filha. E quando a menina vinha dar; muxoxos, a velha dava-lhe conselhos e concluía:
— Minha filha, você fala de barriga cheia. Diz cá uma coisa: — e se teu marido fosse um malandro, um vadio, como há muitos? A fome é dura!
Silvia perguntava:
— Mas, afinal, eu me casei pra quê?
E Dona Letícia, com o seu bom-senso respondia:
— Minha filha, lembre-se que nem tudo é sexo!
Lá voltava Silvia, para casa, com uma dúvida cravada no espírito;
— Será que eu estou errada?" E a verdade é que, entre o problema de subsistência e as exigências de sua vitalidade de quase adolescente, não sabia para onde se virar. A mãe a orientara:
— Põe água fria na nuca que é bom.
Naquela noite, Antônio entra em casa e dá com a mulher acordada. Acordada e enfeitadinha. Perfumara-se, fizera uma meticulosa maquiagem e, numa revisão de si mesma, diante do espelho julgara-se linda. Quem não achou graça foi o marido. Fez seus cálculos: — "vou me aborrecer!" Em pé diante dele, com um olhar de doçura muito vivo, Silvia faz-lhe a pergunta:
— Sabe há quanto tempo você não me beija na boca?
De cara amarrada, descontente, quase enojado, repreende:
— Não faz carnaval!
E ela, terna, mas insistente:
- Domingo que vem faz um mês que você não me dá pelota!
No meio da sala, já sem paletó, sem gravata, o marido abre os braços para o céu, com um ar de mártir. Interpela a mulher:
— Mas eu me mato de trabalho e você só pensa nessas baboseiras?
Desta vez, a mulher fez pé firme:
— Baboseiras, vírgula! Ou você se esquece a finalidade do casamento?
O marido reage, triunfante: — A finalidade do casamento não é o que você está pensando não, senhora. É a prole! E eu tenho culpa de ser estéril, tenho? Te avisei que não podia ter filhos e lavo as minhas mãos!" Silvia começa a chorar:
— Mas eu sou nova, tenho saúde e como é que fica?
Ele ia dar uma resposta irritada, quando vê em cima da cadeira um exemplar de um jonral sensacionalista. Vai apanhar o jornal e só falta esfregá-lo na cara da esposa:
— Você anda lendo isso?
E ela:
— Ando, isto é, a empregada compra e eu também leio.
Antônio pulou:
— Quer dizer que você lê notícia de crime e fica assanhada. E eu é que pago o pato? Sim, senhor! Uma dona de casa, uma senhora casada!
Abria a primeira página e percorria aquele mostruário de crimes. Um título maior chama a sua atenção. Era uma matéria sobre um terrível atentado sexual. A mulher, que olhava de lado, o cutuca:
— Meu filho, leia essa história desta curra, deste estupro!
Estrebuchou:
— Eu não leio isso! Graças a Deus, não tenho a mentalidade deformada.
Mas quando viu, pelo cabeçalho escandaloso, que se tratava de uma mocinha, quase uma menina, e noiva, já de casamento marcado, experimentou a mesma curiosidade da mulher. Continua a leitura com resmungos:
— Mas é nojento! Repugnante! Deviam proibir essas notícias!
O repórter contava a monstruosidade. Quatro bandidos tinham batido no noivo da vítima, posto o rapaz para correr e, em seguida, arrastado a vítima. O noivo tinha sua culpa, pois levara a garota a passear num local ermo, sem policiamento. Saturado dos detalhes, que eram os mais incisivos, Antônio esquecera o cansaço, esquecera o sono e ainda — já não se lembrava mais de sua repulsa ao sensacionalismo de certos jornais. De olho brilhante, balbuciava:
— De amargar! De arder!
E ela, agarrada ao seu braço:
— Já imaginou se fosse eu?
Encosta o jornal na cadeira. Olha a mulher com uma curiosidade nova e a puxa para si. Dá-lhe um beijo na boca. Quando se desprendem, os dois estão ofegantes. Silvia fala, insasiável:
- Imagina se você não me conhecesse e se me encontrasse num lugar deserto. Você com mais outros...
Ele ouvia numa espécie de deslumbramento. Súbito, Silvia o agarra de novo. E faz o apelo:
— Diz que isso é uma curra, diz, implora a mulher, em meio à fantasia e prazer!

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