José Lino Souza Barros

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A queda

18/04/2020 às 12:17
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Ouça a crônica de Nelson Rodrigues na voz de José Lino!

O amigo puxa uma cadeira, senta-se a seu lado. Conversa vai, conversa vem, e o outro diz:
— Conheci, ontem, teu futuro genro.
Eugênio estava em pé, junto ao armário de aço, vendo umas pastas. Vira--se, num espanto imenso: — "Meu futuro quê?" O amigo repete:
— Seu futuro genro. O namorado da sua filha. A menor.
Atônito, Eugênio fecha a gaveta. Aproxima-se e começa:
— Eu não estou entendendo. Namorado de minha filha? Da caçula? Mas não pode ser! É impossível! Nenhuma das minhas filhas tem namorado e, muito menos, a menor! — e insistia: — Deve haver algum engano!
O outro teimou:
— Mas eu falei com o rapaz, ora bolas! Falei também com a mãe do rapaz! É verdade!
Eugênio ri, amargo:
— Já vi tudo! É o tal negócio: o pai é o último a saber. Mas não há de ser nada e Deus é grande.

A fera

Na rua, era cordial com todo mundo, cordial talvez demais. Uma vez, no ônibus, foi até interessante. Desfeiteado pelo trocador, não teve uma reação. Meteu-se num canto, lívido, enquanto o trocador esbravejava. Pois bem. Afável com os outros, era uma fera em casa. Viúvo há 16 anos, tinha cinco filhas, às quais dispensava um tratamento bárbaro. As meninas andavam em casa, na ponta dos pés, no pânico desse pai terrível. O hábito da obediência, da sujeição, as petrificava. Eugênio ia do berro, do grito, ao castigo corporal. Das cinco, apenas a caçula, Teresinha, de 16 anos, permitia-se, às escondidas, umas certas audácias. Por exemplo: na ausência do velho Eugênio, ia ao cinema, com as coleguinhas; ou, então, flertava com rapazes da vizinhança na porta do edifício, onde moravam. As outras não. Submetiam-se às ordens paternas com uma docilidade total; e o respeitavam, mesmo na ausência. Dr. Eugênio já avisara:
— Eu arrebento a primeira que namorar! Estão avisadas!

Rebelde

De noite, ele entra em casa, fora de si. Tranca-se no escritório com a mais velha. Pergunta: "É verdade que Teresinha tem namorado?" A filha treme diante dele: "Não sei, não sei!" O pai a segura pelos dois braços:"Responde: sim ou não?" Como a filha vacilasse ainda, Dr. Eugênio arranca o cinto. Então, a infeliz cai de joelhos, soluçando:
— É verdade, sim! Está namorando!
Com a voz estrangulada, o velho bufa:
— Eu sabia! Tinha a certeza!
E quando a filha, no seu terror, passa por ele, de cabeça baixa, o velho dá-lhe uma lambada com o cinto. Só, no escritório, deixa-se cair, na cadeira, exausto da própria cólera. Fecha os olhos e pensa: "Todas iguais! Todas a mesma coisa!" Cinco minutos depois, ele aparece na porta e chama a caçula, a Teresinha. Das cinco irmãs, quatro eram pobres e desbotadas figuras femininas, sem graça, sem viço, tristíssimas solteironas. Só a menor tinha realmente encanto. Jeitosa de corpo e de rosto, uns olhos de sonho, lábios finos e meigos, chamava a atenção de todo mundo. O pai vira-se para ela e, sóbrio, contido,
— Tem namorado, não tem?
— Eu?
O velho continua:
- Eu sei que tem. Pois bem. Manda o rapaz, amanhã, aqui falar comigo.
E faz o seguinte: convida-o para jantar. Quero conhecer o meu futuro genro.

O jantar

O rapaz chamava-se Arnaldo. No dia seguinte, aparecia, na casa da garota, com certo pânico. Dr. Eugênio, que chegara mais cedo, recebeu-o com relativa cordialidade. Primeiro, houve o triste, o fúnebre, o silencioso jantar. Servido o café, Dr. Eugênio ergueu-se. Apoia as duas mãos na mesa e se dirige ao visitante:
— Suas intenções são boas? Você quer mesmo casar-se com minha filha, aqui, presente, Teresinha?
O rapaz pigarreia:
— Perfeitamente.
Dr. Eugênio levanta a voz:
— Bem. Se o caso é assim, você precisa conhecer certas particularidades da família de sua namorada. Em primeiro lugar: minha filha lhe disse, com certeza, que a mãe morreu de parto, nâo disse?
Admitiu:
— Disse.
O velho dá um murro na mesa, simultâneo com o berro: "Mentira!" Passa a mão no colarinho, abre o nó da gravata, como se lhe faltasse ar. Prossegue arquejante:
— A morte de minha esposa foi uma lenda que eu criei para as minhas filhas. Até hoje, até este momento, elas não conhecem a verdade que eu vou revelar agora. Minha mulher, vinte dias depois de dar à luz a Teresinha, fugiu com outro. Compreendeu? Ouviu bem? Fugiu!...
— Compreendi.
Tem um riso soluçante:
- Interessa-lhe a filha de uma cínica? Interessa-lhe a filha de uma desalmada que destruiu dois lares? Interessa-lhe? Responda! E saiba o seguinte: de todas as minhas filhas, a que se parece mais com minha mulher, o retrato de minha mulher, é justamente Teresinha!
Arnaldo, pálido, com o lábio inferior tremendo, tem medo dessa violência. Dr. Eugênio deixa a cabeceira, faz a volta da mesa. Apavorado, Arnaldo levanta-se. Estão face a face o velho possesso e o jovem acovardado. Dr. Eugênio agarra-o pelos dois braços e o sacode:
— Quer ser traído? Traído como eu fui, quer? Fala! Quer?
O rapaz ameaça um choro: "Não!" Dr. Eugênio arrasta-o. Abre a porta e aponta:
— Some! Some!

A tragédia

Volta para o interior do apartamento com a respiração funda e a boca marcada por um rito hediondo. Contempla os rostos espantados das filhas. Então, a menor, a caçula, destaca-se do grupo atônito. Aproxima-se do pai. Diante dele, soluça:
— Eu me mato, pai, eu me mato!
Ele recua, numa espécie de deslumbramento: — "Você se mata? Teria coragem de se matar?" Começa a rir alto. Súbito, corta a gargaIhada. Cambaleando, vai escancarar a janela, que se abre para o abismo. Recomeça a rir:
— Por sorte moramos num 12º. andar. Tão simples, tão fácil atirar-se daqui. Simplicíssimo. Quer ou não quer? Vem, vem!
Ele próprio sobe no parapeito, enquanto as filhas acompanham todos os seus movimentos com deslumbramento. Em pé, diante do abismo, instiga a filha; grita: — "E se você morrer, não trairá, nunca! Não trairá como sua mãe! Anda!"
A caçula aproxima-se da janela, como magnetizada. As irmãs permanecem distantes, unidas e solidarias, num grupo de terror. De repente, há um grito na noite, mas um grito de homem e não de mulher, um tremendo uivo masculino. Ele perdeu o equilíbrio e caiu lá de cima, de um mortal 12º andar. Todos pensaram num suicídio ou, quando muito, num acidente. Mas veio a polícia. Então, sem uma lágrima, o rosto impassível e impenetrável como uma máscara, a caçula do morto apresenta-se:
- Não foi suicídio, não foi acidente. Eu empurrei meu pai. Eu. Eu empurrei meu pai!

Sonoplastia: Ronald Araújo 

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