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Thiago Neves e a dificuldade de se achar ídolos no futebol

Entre o populismo insosso, medroso, e aquele sem noção, despido de sensibilidade, “polêmico”...

19/02/2019 às 07:37

Vinnicius Silva/Cruzeiro


A “brincadeira” de Thiago Neves, incrivelmente infeliz, sem graça, e ato de nítida estupidez, por incrível que pareça, quase certamente, foi fruto de um rompante populista, da sede de agradar; de, por meio de uma provocação rasteira, dessas que se proliferam no futebol, ganhar a própria torcida. Incidentes assim ajudam a entender um pouco como, para qualquer pessoa não suscetível a acenos simplórios, é difícil ter ídolos no esporte bretão. E aqui nem me refiro a uma idolatria mais clara, caricata, juvenil, de certo modo pouco afeita ao intelecto de qualquer maneira. “Admiração minimamente acentuada” já seria uma expressão adequada, suficiente.

De um lado, por um tipo de instinto de sobrevivência, pelo medo de deslizar e queimar o filme, na era dos assessores múltiplos e da espontaneidade quase nula, as declarações raramente algo acrescentam. Dificilmente fogem de um conjunto que, convenhamos, não abarca muita coisa. Na outra ponta, se repararmos bem, os poucos atletas que escapam desse lugar-comum recaem naquele estereótipo das polêmicas completamente vazias, que atraem apenas um público, digamos, mais “inocente” – para usar um eufemismo ameno... No meio disso tudo, portanto, entre o politicamente correto totalmente insípido, e a “descontração”, a “coragem” também demagoga – busca o mesmo fim, o colo do povo, apenas por outro prisma –, e/ou de mau gosto, tosca, a inteligência é sempre isolada para escanteio. Espírito crítico, opinião própria, boas sacadas, algo com aura “humana” e infimamente perspicaz e/ou analítico, nada disso costuma aparecer em combinações.

Umberto Eco, nas últimas entrevistas com as quais nos brindou, falou muito de como as redes sociais não “criaram” a burrice, a intolerância, a falta de educação – apenas deram vazão a estes defeitos tão impregnados na nossa natureza. Uma nova forma de desespero pela popularidade, pelo acolhimento, foi criada. Na mesma esteira, como sugeriria Michel Laub, edificaram-se novos tribunais – e estes sim, demasiadamente céleres. Quando não amparada pela lucidez, pela clarividência, a pressa para suceder naquilo que se representa pode ocasionar efeito diametralmente contrário; muitas vezes, pela insensatez da nossa espécie, em injustiças públicas; em outros casos, como neste de Thiago Neves, longe disso – ele foi indiscutivelmente muito mal (embora não se justifiquem também certos excessos contra ele praticados, óbvio).

O humor brasileiro tem discutido nos últimos anos os seus limites. Virou até assunto clichê. Como fã de Family Guy e Monty Python, sempre citados por aqui, obviamente, sou amplamente liberal nessa seara. Mas às vezes, a “piada” – além de sequer se qualificar enquanto tal, de dignar-se ao adjetivo –, entra numa área verdadeiramente proibitiva. Talvez, o “timing” interfira. Às vezes, nem ele resolve...

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