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A soberania eterna de um Rei único

Nelson Rodrigues deu a Pelé a capa e a coroa, e ele, vestido, ocupou o trono e reinou.

23/10/2018 às 07:06
A soberania eterna de um Rei único

Eis um bom motivo para que todos conheçam Nelson Rodrigues: foi ele que fez de Pelé um Rei. Sim. Vão dizer que foi o próprio jogador que se consagrou com suas pernas. Mas, não. Nós sempre precisamos de um olheiro. Uma voz. Uma aceitação. Precisamos ser vistos. Eu, por exemplo, sou um anônimo, mas com o espaço que a Rádio Itatiaia me deu, você está “me vendo”. Podemos dizer, em suas devidas proporções, que a Rádio Itatiaia de Pelé foi Nelson Rodrigues.

Pelé podia ser um craque, um gênio, um abençoado, o melhor jogador do mundo, mas as escrituras rodriguianas previram e o tornou Rei. Veja com seus próprios olhos:

“Depois do jogo América x Santos, seria uma crime não fazer de Pelé o meu personagem da semana. Grande figura, que o meu confrade Albert Laurence chama de “o Domingos da Guia do ataque”. Examino a ficha de Pelé e tomo um susto: — dezessete anos! Há certas idades que são aberrantes, inverossímeis. Uma delas é a de Pelé. Eu, com mais de quarenta, custo a crer que alguém possa ter dezessete anos, jamais. Pois bem: — verdadeiro garoto, o meu personagem anda em campo com uma dessas autoridades irresistíveis e fatais. Dir-se-ia um rei, não sei se Lear, se imperador Jones, se etíope. Racionalmente perfeito, do seu peito parecem pender mantos invisíveis. Em suma: — Ponham-no em qualquer rancho e sua majestade dinástica há de ofuscar toda a corte em derredor.
O que nós chamamos de realeza é, acima de todo, um estado de alma. E Pelé leva sobre os demais jogadores uma vantagem considerável: — a de se sentir rei, da cabeça aos pés. Quando ele apanha a bola e dribla um adversário, é como quem enxota, quem escorraça um plebeu ignaro e piolhento. E o meu personagem tem uma tal sensação de superioridade que não faz cerimônias. Já lhe perguntaram: — “Quem é o maior meia do mundo?”. Ele respondeu, com a ênfase das certeza eternas: — “Eu”. Insistiram: — “Qual é o maior ponta do mundo?”. E Pelé: — “Eu”. Em outro qualquer, esse desplante faria rir ou sorrir. Mas o fabuloso craque põe no que diz uma tal carga de convicção, que ninguém reage e todos passam a admitir que ele seja, realmente, o maior de todas as posições. Nas pontas, nas meias e no centro, há de ser o mesmo, isto é, o incomparável Pelé”. 

Amigos, estamos falando de uma crônica datada de 25 de março de 1958. Vejam que a referência, até então, era Domingos da Guia. Prestem atenção na explicação de Nelson Rodrigues do por quê dar a Pelé o título de Rei. Vemos aí um ato de reciprocidade incrível! Nelson Rodrigues deu a Pelé a capa e a coroa, e ele, vestido, ocupou o trono e reinou. Convido vocês a verem essa e outras escritas do cronista sobre o santista; são poemas.

E fica aqui para nós o peso da herança. Como é bom termos uma base incrível assim, mas como é difícil manter esse nível. Não quero desmerecer ninguém, mas não há iguais a esses dois. Falo pelo jornalismo e pelo futebol. É difícil manter a realeza de quem brincava em campo e desenhava nos jornais. Pelé tinha nos pés uma bola encantada, como escrevia Nelson Rodrigues, com sua caneta não menos encantada. 

Mas não podemos negar que nossa carência maior ficou no futebol. A camisa pesou. Atualmente temos a tecnologia, a física, a química, a biologia, a tv, as marcas, os médicos, os ct’s, a Nasa, as chuteiras de ouro, os penteados, as redes sociais, as estatísticas, os jatinhos, o marketing, o naming rights, os sócios, os cartolas, os empresários, a exposição, os bichos, as premiações, o valor de passe, o fairplay, o replay, o VAR, a votação do melhor em campo, do melhor do campeonato, do melhor do mundo, a democracia, o “ponto de vista”, a escolha, a relativização, a imprensa, a comissão técnica, a diretoria, a vaidade, a torcida, a mala branca, a preta… temos tudo, amigos, menos um rei em campo. Ele completa, hoje, 78 anos, e não há nada neste mundo moderno que devolva nosso camisa 10.

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