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A força mental de um gênio do esporte

Parafraseando Fernando Calazans: se Federer perder o recorde, azar do recorde. Ele ainda é, e será, o melhor de todos os tempos

07/02/2020 às 05:22

 

Dois dos acontecimentos que mais marcaram os últimos dias do esporte no planeta: o oitavo título de Djokovic no Australian Open – seu décimo sétimo Grand Slam em geral –, e a continuidade das belíssimas homenagens a Kobe Bryant – inclusive durante o Super Bowl, outro ponto alto da semana.

O Sérvio, que superara um Federer longe de suas condições físicas ideais na semifinal, se aproxima de Nadal e do próprio suíço na luta pelo mais nobre dos recordes do mundo do tênis: o espanhol segue com seus 19 Majors, enquanto o maior de todos, do alto de seus 38 anos, permanece com 20. Qualquer um dos mencionados integrantes do chamado Big Three do tênis poderia ser citado aqui, com suas idiossincrasias, como exemplos perfeitos de força psicológica, de capacidade para não sucumbir à pressão. Faria até mais sentido, se nos levássemos por uma objetividade talvez idiota – inclusive pelos critérios do próprio Nelson Rodrigues, cunhador da expressão –, ressaltar aquele dos três que levou a glória suprema no primeiro torneio importante do ano. Mas, na seara à qual esta coluna se atém, não foi ele quem me chamou a atenção particularmente em Melbourne.

Nas quartas-de-final diante do americano Tennys Sandgrenn, Federer chegou a emocionar pela excelência alcançada no quesito em tela. Para começo de conversa, uma estatística – pouco comentada, por não se referir a resultados – que me parece das mais representativas: o rei da Basiléia nunca abandou uma partida sequer. Na vida! Quebrado, machucado, não importa. Respeito ao público que pagou o ingresso, e confiança na aptidão para virar a chave mesmo nas mais adversas das condições, estão por trás desta ética de trabalho. Contra Sandgreen, as manchetes da imprensa exaltaram como Federer salvou sete match points para chegar à vitória por 3 sets a 2. Mas quem viu o jogo na íntegra – meu caso – acompanhou um espetáculo com vários outros contornos épicos; mais uma vez, a história do esporte sendo construída diante dos nossos olhos. O suíço não “apenas” salvou sete match points – como os preguiçosos textos proliferados por aí sugeriram. Ele virou um duelo que estava 2 sets a 1 para o adversário, um tie-break no quarto set que chegara ao estágio de marcar 6 a 3 para o seu oponente – e terminara 10 a 8 para Federer –, e fez tudo isso – ênfase aqui – claramente machucado. Recordei-me de Reinaldo marcando gol mancando no Maracanã calando os rubro-negros.

O dom para sair de uma derrota quase certa quando seu corpo o impede de acelerar seus pontos nos games de serviço – justamente um recurso comum para dirimir os males de um problema físico –, já que Federer, pelas dores na lombar e na posterior da coxa, começou a baixar vertiginosamente a potência dos seus saques, já é único. Fazê-lo quando suas pernas estão travadas e você ou não consegue chegar nas bolas, ou as alcança quase que apenas protocolarmente, longe do jeito ideal para executar a raquetada que lhe seria natural, é inesquecível. Sempre falo da graça infinita – ah, Wallace... –, da beleza incomparável da expressão corporal de Federer na quadra, de seus golpes, seus gestos, sua caminhada, seus movimentos; da sua técnica sem igual; não bastasse isso, sua tranquilidade, sua competência para suportar as mais pesadas pressões, também são acima de qualquer parâmetro. Por isso, torna-se inevitável cravar: dane-se caso Nadal ou Djokovic o ultrapassarem em número de Grand Slams. Federer É o maior, o melhor de todos os tempos.

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